terça-feira, 10 de maio de 2011

Talharim aos queijos

Chegou em casa depois da aula às 12:30h. Abriu a geladeira e deparou-se com a realidade dos solteiros que ‘optam’ por morar sozinhos: um vazio só. Não tinha nada naquela geladeira! Resolveu usar a criatividade e ver no que ia dar.

Precisava de uma receita prática que não usasse ingrediente algum e resultasse num prato deliciosamente saboroso e matar sua vontade de comer “uma coisa”. Era assim que dizia quando tinha vontade de comer algo muito gostoso, mas não sabia exatamente o que. E era isso o que desejava naquele momento: algo delicioso!

Foi fuçando as prateleiras e conseguiu levantar os seguintes ingredientes: 200g de talharim fresco – só que estava congelado; ½ triângulo de queijo gorgonzola que sobrou da noite de queijos e vinhos que preparou para o namorado; +- 50g de queijo parmesão que tinha ralado para o risoto que fez para a mãe; 2 colheres de creme de leite fresco – que a essa altura do campeonato de fresco não tinha mais nada, pois estava na geladeira há mais ou menos uma semana; castanhas de caju; 1 garrafa de vinho tinto seco carmenere que estava gelando há dias (isso combinava? Ah, teria de combinar).

Colocou a água para ferver e adicionou sal. Não gostava de colocar um fio de óleo na água do macarrão desde que havia lido não se lembrava onde havia lido que o óleo não permite que o molho se incorpore muito bem à massa.

O interfone tocou. Como assim o interfone tocou? Não estava esperando ninguém! E tinha planos para aquela tarde, havia planejado tudo meticulosamente: depois do almoço lavaria as louças, organizaria a casa e se deitaria para ler um bom livro e tirar aquele cochilo. Estava planejando isso há dias! Ficou na dúvida se deveria ou não atender, mas acabou sucumbindo ao toque irritante daquela campainha. Quem poderia ser?
  • Oi.
  • Oiê! tudo bem?
  • Quem é?
  • Sou eu, Luís, oras quem é?!
  • Que Luís?
  • Ê, vai começar de brincadeira é?
  • Olha Luís, sinceramente eu acho que você tocou na casa errada. Eu não conheço nenhum Luís.
  • Mas aí não é a casa da Graça?
  • Não, Luís, aqui não é a casa da Graça.
  • Mas não é do 803?
  • Não, é do 703!
  • Ah tá, desculpa!
  • Tudo bem.

Quando voltou-se ao fogão, a água já estava fervendo. Colocou a massa - apenas metade do pacote, poderia precisar de uma outra vez – e marcou 8 minutos no temporizador. Acabado o tempo, retirou a massa, lavou em água fria e começou a fazer o molho. Derreteu uma colher de sopa de manteiga e passou o talharim. Adicionou metade do queijo gorgonzola e quando este começou a derreter juntou o creme de leite fresco. Acrescentou metade do parmesão e desligou o fogo. Nesse momento colocou as castanhas de caju picadas grosseiramente.

Colheu algumas folhas de manjericão do pé que mantinha na varanda, serviu uma taça do vinho tinto que estava na geladeira. Sentou-se em frente à TV e, como não tinha nada que prestasse passando, ligou o DVD e colocou Sem Reservas para ver de novo.

Deu a primeira garfada no talharim e o primeiro pensamento que lhe veio à cabeça foi: Como podia ficar tão boa uma massa quase sem ingredientes? Sinceramente, não faltava nada. Ao terminar de comer, deitou-se no sofá onde adormeceu pelo resto da tarde deixando as louças, a casa e o bom livro para um outro momento. Um momento em que não estivesse curtindo um cochilo tão gostoso.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Pasteis de Caranguejo e Carne Seca à São Luís

Praia Calhau Litorânea
Pisei os pés na ilha do amor pela primeira vez em 2001. Tinha acabado de me formar e a turma queria uma festa tipo baile. Eu, como nunca fui fã desse tipo de festa e estava me formando em turismo, decidi que iria juntar a grana e fazer uma viagem para um lugar que não conhecesse.

Eu e Kátia Maria
Ouvia falar de São Luís do Maranhão desde os meus 12 anos quando conheci Kátia Maria. Maranhense apaixonada e convicta falava de São Luís como se fosse a 8ª maravilha do mundo. Ficamos amigas e trocamos cartas por anos, era a hora certa de ir conhecer a cidade e rever uma velha amiga.

A minha primeira impressão foi deliciosa. É uma ‘cidade do interior’, encantadora! Depois dessa ida, voltei à São Luís inúmeras vezes. O mar de São Luís é diferente, a água tem um tom amarronzado, estranho. Mas a água é salgada do mesmo jeito e mar é mar com areia e praia e barracas e água de coco e ostras e caranguejos e tal.

Márvio e Eu no Reviver
Todas as vezes em que voltei à ilha, tive experiências gastronômicas e turísticas deliciosas, mas foi na minha lua de mel que conhecemos o restaurante ‘Maracangalha’ situado na Av. Litorânea, de frente para o mar. Pedimos um peixe com um molho diferente que estava delicioso, mas a experiência gastronômica marcante dessa viagem, foram os pastéis que pedimos de entrada.

Eram mini pastéis recheados com carne de caranguejo e com carne seca acompanhados de geleia de pimenta. Uma ‘coisa’! Super fácil de fazer e ótimo petisco para acompanhar uma cerveja bem gelada.
Quando voltamos à Brasília encontramos a carne de caranguejo na feira a um preço razoável. Compramos 200g. Refoguei com cebola e tomate picadinhos e coloquei ervas aromáticas. Ao final acrescentei cheiro verde.

Para o recheio de carne seca precisamos de 200g de carne de charque dessalgada e desfiada. Refoguei com cebola e tomate picadinhos e deixei ficar pouco caldo, grosso.

Comprei massa de pastel pronta, recheei os pasteis e assei - viciei em pastel assado porque é mais light e mata a vontade de comer pastel do mesmo jeito, só que ao invés de pincelar a massa com gema de ovo, gosto de usar azeite - em forno preaquecido em 200º até ficarem dourados.


A geleia de pimenta trouxemos de São Luís e sempre que alguém vem de lá, encomendo para matar saudades, mas é possível encontrar nos grandes mercados. A combinação fica perfeita! Depois dessa experiência já fiz esses pasteis com recheios variados – o de calabresa com queijo mussarela fica delicioso - mas a geleia de pimenta não tem substituta: tem que ser ela e pronto! Você vai entender se resolver testar essa receita.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Brownie de Microondas na Páscoa

Eu quero! Eu quero, eu quero! – Batia os pés no chão mantendo os punhos bem cerrados enquanto sustentava seu desejo, sem gritar, porque a mãe havia lhe ensinado que deveria manter o tom de voz para não perder a razão. Não sabia ao certo o que era razão, mas isso não importava, naquele momento o importante era conseguir alcançar seu objetivo.

Desafiava a mãe aquele projeto de pessoa! A pequena Maria Clara sempre fora assim, determinada, decidida, enfática. Tinha a habilidade de impor sua vontade. Aos cinco anos sabia bem o que queria, e, naquele momento, o objeto do seu desejo era muito simples: um ovo de páscoa diferente!

Sua mãe, Cecília, jovem e perdida na ciência da maternidade, entendia que lhe cabia descobrir exatamente o que era ‘diferente naquele caso.

Como não bastassem as adversidades que a vida lhe trouxera, enviara de brinde uma menina assim: queria ser diferente em tudo! Nada do comum lhe agradava. Era uma dificuldade encontrar roupas, sapatos, penteados, comida, coisas que lhe satisfizessem. Porque a filha não podia ser como as outras crianças, que aceitavam tudo, para as quais qualquer coisa estava bom?!

Tomada por esses pensamentos, em um total estado de letargia, agarrou o primeiro vestido que lhe veio a mão, escorregou-o pelo corpo suado, prendeu os cabelos num coque mal feito e foi verificar a menina. Esta, sentada à mesa da cozinha, vestida com o uniforme impecável, os cabelos muito bem penteados, e a mochila nas costas, levantou-se de súbito ao ver a figura da mãe parada à porta como se fosse uma qualquer. Não lhe agradava ver a mãe assim. Era uma mulher bonita, distinta, cheia de graça e alegria, mas nos últimos tempos parecia mais velha do que sua avó, estava sempre cansada e muito mal vestida. O que estaria acontecendo com a mãe? Ela pensava e pensava, mas nos seus cinco anos bem vividos, não encontrava resposta para perturbadora pergunta.

Saíram de casa. Andavam de mãos dadas pelas ruas da cidade, sem dizer palavra. A mãe perdida em seus pensamentos e a filha em suas considerações, procurando uma forma de fazer a mãe voltar à vida. Pararam de frente ao Liceu, a menina olhava para cima enquanto o rosto cansado e triste da mãe descia ao encontro do seu. Beijou-a na face com carinho e disse: mamãe, eu te amo! A mãe abriu-lhe um sorriso entristecido e replicou: também te amo Coelhinha! Virou-se de costas e seguiu caminho para a clínica.

Durante toda a caminhada a cabeça estava livre de pensamentos. Ou tomada por tantos que não conseguia organizar e entender um sequer. Achou melhor continuar caminhando sem dar atenção a nenhum deles. Entrou no consultório, falou com a secretária, sentou-se e passou a folhear, desinteressadamente, uma revista que estava sobre a mesa de centro: anúncios de lojas, propaganda de cosméticos, belíssimas modelos vestindo roupas da moda e uma receita fácil de brownie de chocolate. Uma receita FÁCIL de brownie de chocolate?! Pediu um papel à secretária e começou a anotar a receita:

Brownie no microondas
200g e mais um pouco de manteiga com sal (1 tablete e mais um pouco)
Levar a manteiga ao micro para derreter - dica derreter no pirex que será usado para assar o doce, assim já estará untado quando for ao forno.

Despeje a manteiga derretida numa bacia e acrescente:
1 xícara de chocolate em pó
2 xícaras de açúcar
4 ovos inteiros
1 1/2 xícara de farinha de trigo
Misturar bem e levar ao microondas em pirex untado na potência FORTE (alta) durante 10 minutos (se o forno for MUITO potente, comece a verificar se ficou pronto aos 8 minutos).
Se desejar pode acrescentar nozes picadas. No forno convencional leva + ou - 45 min em forno pré-aquecido.  Servir com sorvete de creme.
Que forno convencional que nada! Um bolo que leva 10 minutos para ficar pronto?! Era a solução para o seu problema atual: Esse podia ser um ovo de páscoa diferente, pensou chegando a esboçar um sorriso. Enquanto a secretária a chamava informando que era sua vez de entrar.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Berinjelas à Parmiggiana e Risoto ao Limão sem sair de casa

Acordou às com uma saudade intensa de Florença. Aqueles campos floridos, as ruas estreitas da cidade, aquelas casinhas lindas e o gelato! O melhor sorvete do mundo. Pode visualizar-se claramente andando pelas ruas de Milão, percorrendo os pontos turísticos de Roma, voltando às origens no sul da Itália. Mentalmente via-se dirigindo pelos campos da Toscana! Agora era assim: sentia saudades de lugares por onde nunca havia passado. Pelo menos não nessa vida, pensava. Será possível que já estivesse andado por lá em alguma outra vida? Não sabia, não estava certa ao menos de que havia outra vida.

Espreguiçou-se, levantou-se vagarosamente, fez uns exercícios de alongamento e pegou um livro de receitas italianas que ganhara do marido. Folheava bem devagar, prestando a máxima atenção às receitas e às fotos dos pratos - cada uma mais linda que a outra - tentando imaginar qual o prato certo para lhe levar de volta àquele lugar de beleza tão ímpar. 

Viu receitas de antepastos, sopas, saladas, massas diversas, polenta... Ufa, quanta diversidade há na culinária italiana! Estava quase desistindo quando se deparou com aquele que aguçou seu paladar: Risoto ao limão. Pode sentir na boca o sabor de limão e aquela sensação causada pela acidez da fruta. Um tanto quanto diferente aquela receita, pensou.

Mais à frente encontrou uma receita que levaria 2 berinjelas cortadas em rodelas, 4 tomates também em rodelas, 100g de molho de tomate, folhas de manjericão picadas, sal, 200g de queijo mozzarella em fatias e 50g de queijo parmesão ralado.

A receita dizia: salpique as berinjelas com sal e deixe repousar em um escorredor por aproximadamente 30 minutos, para eliminar o líquido amargo. Lave as fatias e seque-as com papel-toalha. Doure-as em uma frigideira antiaderente sem óleo até que estejam bem tostadas por fora e macias por dentro. Faça camadas alternando fatias de berinjela, fatias de tomate, 1 colherada de molho de tomate, algumas folhas de manjericão picadas, fatias de mozzarella e parmesão ralado. Leve para assar em forno pré aquecido em 160º por 10 minutos. Decore com manjericão e sirva em seguida.

Estava decidido: Berinjela à parmiggiana como entrada. Risotto ao limão para prato principal e um bom vinho branco riesling para acompanhar!

Para o risoto levou uma panela ao fogo com uma colher de sopa de azeite e refogou 250g de arroz carnaroli até ficar levemente dourado. Acrescentou então 1 cebola picada e salteou por mais 2 minutos. Abaixou o fogo e juntou 50 ml de vinho branco seco em temperatura ambiente até o álcool evaporar e então começou a acrescentar, aos poucos, 500 ml de caldo de legumes, mexendo sempre. Cozinhou por mais ou menos 15 minutos, até ficar ‘al dente’. Nesse ponto acertou o sal e a pimenta. Retirou a panela do fogo, adicionou 1 colher de sopa de manteiga misturando bem. Em seguida, juntou o suco de 1 limão e 4 gemas, mexendo vigorosamente, para formar um creme denso. Polvilhou queijo parmesão que ralou na hora e serviu.

Ao preparar a refeição, colocou um CD de músicas italianas que uma amiga lhe emprestar.

Ao degustar aquele cardápio originalmente italiano, pode sentir um sabor conhecido, não aflorado, mas que restava guardado em algum lugar de sua memória. Apesar de não ter saído de casa, foi uma viagem deliciosa. Resolveu que essa seria uma forma de viajar sempre que sentisse vontade, mesmo que a sensação não fosse a mesma de estar presente no lugar, levava-a de corpo e alma ao local imaginado.

domingo, 10 de abril de 2011

Antepasto de Pimentões Vermelhos regados à adolescência

Tinha mais ou menos uns 14 anos quando a mãe a chamou para ir a uma reunião na casa de uma amiga. Era uma reunião das coroas, não ia ter nada que lhe interessasse. Mas resolveu ir, não tinha nada a fazer e gostava muito da Vera, a amiga da mãe.

Lá chegando constatou - como havia imaginado - que nada haveria de bom para ela naquela noite. E logo começaram aquelas conversas que sempre temos que enfrentar quando as amigas das nossas mães se encontram:
- 'Nossa, essa já é a Joana? Como está crescida!' - dizia uma.
- 'Joana, que linda. Uma moça feita né?' - dizia outra.
E lá vinha mais uma: ‘Gente, o tempo passa muito rápido mesmo, foi outro dia que te segurei no colo!’ - A pobre Joana sorria para uma e outra, desconcertada e desejando que aquele momento de tortura chegasse ao fim e as ‘coroas’ mergulhassem em algum papo da juventude e a deixassem em paz.

Perdida em meio aquelas considerações, mergulhou de cabeça na única coisa que poderia fazer: comer! E deu a experimentar tudo o que havia nas mesas. Uma fatia de bolo ali, um pãozinho aqui, um pouquinho desse caldo, uma torta salgada, outra doce... E divertia-se entretida naquele mundo tão delicioso. Lá pelas tantas se deparou com uma compota salgada de uma coisa vermelha, algo parecido com tomate em fatias, mas com um sabor diferente. Colocou um pouco sobre uma fatia de pão e degustou. Nossa, que coisa boa! Sentou-se ao lado daquela mesinha de canto e, sozinha, entregou-se ao prazer da degustação daquela delícia gastronômica esquecendo-se de tudo o mais.

A mãe, que passara a festa toda acenando e sorrindo de longe enquanto colocava a conversa em dia, enfim a encontrou e perguntou: tudo bem?
- tudo.
- Já quer ir embora?
- Pode ser.
- Então vamos ficar mais um pouquinho?
- Pode ser. Mãe?
- Oi.
- Já que vamos ficar mais um pouquinho, você poderia perguntar à Vera como ela faz isso? É bom demais! Acho que é com tomate. Sei que tem cebola, alho, orégano, azeite...
- Combinado.- disse a mãe servindo-se de um pouco da compota que visivelmente aprovou e voltando-se à companhia das amigas.

Um pouco mais tarde a mãe lhe chamou para ir embora, e, ainda à porta, Joana não se conteve e perguntou:
- Você perguntou pra ela?
- O que filha?
- A receita...
- Ah, Vera, a Joana quer saber como você faz aquela compota de tomate.
A menina quase morreu de vergonha. Precisava perguntar assim, na cara dela?! Deu um sorriso amarelo e desviou o olhar.
Então a Vera disse: Gostou foi Joana? Não é tomate não, é antepasto de pimentão vermelho. Presta atenção, é super fácil: Depois de lavado, coloque um pimentão vermelho inteiro no forno para assar até que a casca desprenda. Aproximadamente 20 a 30 minutos, na temperatura baixa. Depois retire a casca, corte em fatias finas e coloque numa vasilha. Adicione uma cebola pequena cortada em tiras, 2 a 3 dentes de alho laminados, azeite o suficiente para deixar a mistura úmida e sobrar um pouco e especiarias. Nesse usei orégano e manjericão, mas você pode usar o que quiser.
- Obrigada Tia Vera!
- De nada minha flor!
Beijaram-se cordialmente despedindo-se.

Passaram-se os anos e Joana nunca fez a receita, como também nunca a esqueceu. Agora, mulher casada, chegou em casa um dia após o trabalho e resolveu testar. Quando estava quase acabando, viu que não tinha alho. Ligou para o marido, que ainda não havia voltado do trabalho e lhe pediu para comprar uma cabeça de alho. Deixou a mistura pronta, e por não ter orégano usou as ervas que cultivava na mini horta da varanda do apartamento: endro, manjericão e alecrim frescos e um pouco de tomilho. Quando o marido chegou, laminou os dentes de alho e acrescentou. Serviu uma porção numa fatia de pão e ofereceu ao marido que dispensou vários elogios em aprovação.

Depois, sentou-se calmamente no sofá com sua fatia de pão recheada da compota e degustou-a lentamente como fez anos atrás. A mesma textura de que se lembrava, a mistura homogênea de temperos. Aquele sabor que ficara gravado em sua memória, lá estava em suas mãos. Por alguns instantes foi levada de volta ao apartamento da tia Vera tomada por um prazer agradável. E foi naquele momento que decidiu não mais se eximir de praticar aquela receita várias e várias vezes para imergir-se em momentos tão deliciosos.

Obs.: Essa estória é baseada em fatos reais. :)

domingo, 3 de abril de 2011

Picanha Fácil

Há dias o Márvio vinha com essa história de que queria comer carne. Nem os rodízios de pizza, tão amados, ou melhor, programas favoritos dele não tiravam essa idéia de comer carne da cabeça dele. Estava com uma vontade daquelas que vem de dentro da alma. Carne! Macia, tenra, saborosa e vermelha carne.
Entrei no mercado para comprar frutas e me deparei com uma linda peça de picanha maturada por um ótimo valor.  Não resisti: comprei. Tinha visto dias atrás na TV, uma receita suuuuuper fácil de picanha ao forno. Era a oportunidade perfeita: saciar a vontade dele e testar uma nova receita.
O Márvio entrou na minha vida em 2005. Com um jeito sério e fechado, temos várias diferenças: no modo de pensar, nos gostos, no conhecimento, mas a convivência mostrou um ponto em comum muito forte: culinária! Eu amo cozinhar e ele ama experimentar minhas receitas. Sem reservas. Basta eu dizer o que vou fazer e ele vai com fé. Sem medo de ser feliz! Se for uma receita nova então, ele incentiva até o projeto sair do pensamento. Aos poucos, fomos descobrindo lugares comuns no relacionamento, e outros nem tão comuns assim.
No começo ele tinha medo de experimentar as coisas desconhecidas. O diferente. Aos poucos, foi se abrindo, percebendo o quanto é importante pra mim descobrir novos sabores, novas culturas através da gastronomia, e então se entregou.
Voltando à picanha, fomos passar o dia na casa da minha mãe. Levei a picanha. Chegando lá peguei a peça inteira e preparei. Depois coloquei num tabuleiro com a capa de gordura pra cima, besuntei com sal fino – coloquei sal abundantemente, dos dois lados. Uma camada por cima da capa de gordura. Outra capa, de sal – e por cima do sal, farinha de trigo. Levei ao forno pré-aquecido em 200 e depois de 30 minutos retirei do forno e cortei.

A princípio eu não estava muito crente não. Uma lapa de carne assim, temperada apenas com sal fino! E toda aquela farinha de trigo... Sei não. Enfim, cortei a peça em fatias e a faca deslizava como se eu estivesse cortando manteiga. A carne ficou macia, suculenta. Ao colocar o primeiro pedaço na boca senti que todo o receio anterior desapareceu naquele sabor equilibrado. A carne toda tinha um tempero suave e a textura era leve.

Levei à mesa, acompanhada de uma salada simples de alface picada, tomate italiano em fatias, cebolas em fatias, castanhas de caju picadas, sal, pimenta do reino, limão e azeite. Arroz integral e feijão carioca temperado com bacon. Perguntei: e aí... o Márvio pegou um pedaço de carne pura, sem acompanhamentos. Cortou, colocou na boca, mastigou lentamente, me olhou e disse: fantástica! Aí, minha mãe que nem de carne vermelha gosta, se aventurou. Experimentou e aprovou.
Almoçamos com um vinho tinto francês, Pinot Noir. E de sobremesa bananas flambadas. Estava tudo uma delícia. Ao final, para meu deleite, o ele me olhou e disse: valeu a pena esperar. Vontade de comer carne finamente satisfeita!

domingo, 27 de março de 2011

Quero mais Petit Gateaut

Conheci a Dri quando tínhamos por volta de 6, 7 anos de idade (isso faz uns 5 a 10 anos no máximo ahahahahahhahah). Ela morava na rua abaixo da minha, no Guará II, o que facilitava brincarmos muito juntas. Estudamos aaaanos na mesma escola e íamos juntas. Passamos por várias fases da amizade, que resistiu ao tempo. Por vezes ficamos muito tempo sem nos falar. Não por brigas, nem por raiva, mas pelos trajetos que a vida nos impõe. O bom é que sempre que nos encontramos, retomamos o papo “de onde deixamos” da última vez. Isso é gostoso demais!

Somos bem diferentes uma da outra: características marcantes em cada personalidade, jeito de ser e de agir, gostos diversos, preferências variadas, e tudo isso só serviu para fortalecer mais nossa amizade. A gente aprendeu a se conhecer e se respeitar, reconhecer os limites de cada uma e as necessidades. Assim estamos próximas mesmo quando estamos distantes. Nossa amizade tem um sabor doce, leve, muito bom. Tão bom como o Petit Gateaut que preparamos no dia em que a Dri foi lá pra casa e fizemos risoto de pêra, gorgonzola e nozes como prato principal.


A receita que tenho é tão prática e rápida, e toda a conversa que tínhamos para colocar em dia estava tão agradável, que nem deu preguiça de voltar à cozinha. 
Dessa vez precisamos de:
1 barra de chocolate meio amargo - 170 / 180g
100g de manteiga
1 xícara de Açúcar
1 xícara Farinha de trigo
4 ovos

Derreta o chocolate com a manteiga (a receita diz em banho Maria, mas já experimentei usar o microondas por 1 minuto e ficou perfeito), acrescente o restante dos ingredientes e mexa até a massa ficar homogênea.
Coloque em forminhas untadas, tomando cuidado para colocar massa apenas até a metade da forma, pois o bolinho vai crescer e pode derramar. Leve ao forno pré-aquecido em 180º por 8 minutos. Desligue, desenforme e sirva com sorvete de creme.


Essa quantidade rende 8 (oito) petits, nós fizemos a metade da receita (quatro petits) e só assamos 2 (dois), depois de comer risoto acompanhado de pró seco branco, 1 (um) petit era suficiente para cada uma. Não precisamos de nada mais, a noite terminou com muita conversa e bastantes risadas e boas idéias para o próximo encontro, que faremos na casa dela!

domingo, 20 de março de 2011

Filé de Congrio a Viña Del Mar


Márvio, eu, Vilma e mãe

Foi em outubro de 2010, por volta do dia 04 ou 05 não estou muito certa, e o senhor Jorge (a partir de agora denominado Ror- rre, como pronunciam os chilenos) nos apanhou no hotel em Providência - um bairro pitoresco e bem agitado de Santiago do Chile, o qual eu a - d - o - r - e - i! - às Nós, éramos eu, o Márvio, minha mãe e a Vilma, uma amiga de minha mãe. 

Naquele dia o roteiro era: Valparaíso e Viña Del Mar, cidades balneárias a 1 hora e meia de Santiago. "Ror-rre" foi fantástico! Fez as vezes de guia enquanto dirigia e, de vez em quando, arriscava uma piada ou um comentário engraçado. A viagem pareceu durar menos de meia hora e, a bela vista do caminho enchia nossos olhos e alimentava nossas almas. Passamos por morros, cidadelas e vinícolas tendo sempre a paisagem das Cordilheiras dos Andes ao fundo - belíssima!

A princípio achamos que havíamos escolhido o dia errado para tal passeio devido ao tempo chuvoso e neblinado. Um frio de enlouquecer! Definitivamente não, não era o dia mais apropriado para a praia, mas aos poucos o tempo foi abrindo e o sol aventurava-se num ou noutro raio. O tempo não abriu, mas a chuva parou. A neblina cessou, e o dia foi completo.
Valparaíso - vista mirante

Valparaíso não é o lugar mais lindo do mundo – como já havia me advertido uma amiga - mas "Ror-rre" fez tudo parecer encantador. Visitamos os principais pontos turísticos, conhecemos a casa de Pablo Neruda – La Sebastiana - fomos a duas feirinhas de artesanato e tiramos fotos, muitas fotos.

Por volta das chegando a Viña Del Mar, decidimos que já era hora de almoçar. "Ror-rre" então nos levou a um restaurante perfeito: era um castelo do século XIX, de frente para o Oceano Pacífico, onde podíamos vislumbrar não só a infinitude do oceano como pelicanos e gaivotas (vários) em descidas triunfantes que acabavam em rápidos mergulhos nas gélidas águas do Pacífico - já colocou os pés naquelas águas? É uma sensação de congelamento! - em busca dos mesmos peixes os quais ansiávamos ter em nossos pratos em breve

Pedi um filé de congrio, um peixe de carne branca levíssima típico do Pacífico - que para minha surpresa encontrei facilmente nas feiras aqui em Brasília - finamente grelhado em azeite, com um delicioso molho de camarões, puxados na manteiga de ervas finas com cebola laminada, tomates cereja sem sementes cortados ao meio, sal à gosto e um toque de salsinha e pimenta vermelha em juliene.


Experimentei esse manjar dos deuses acompanhado de batatas puxadas na manteiga temperadas com sal e cebolinha picada e Pisco Sour, uma bebida tipicamente chilena feita com 1 dose de pisco - uma espécie de cachaça - sumo de 1/2 limão, 2 colheres de sopa de açúcar e 1/2 clara de ovo, bem batidos no liquidificador e servido bem gelado com uma fina fatia de limão para decorar. Lembra um pouco a nossa famosa caipirinha.

O sabor do peixe era suave e sua textura macia, quase derretia na boca. O molho, picante ao ponto, encaixava-se perfeitamente naquele ambiente tão agradável... A combinação de ingredientes foi muito feliz. Após a refeição, nos permitimos alguns momentos mais de prazer e, enquanto observávamos os pássaros em seus mergulhos radiantes - cena de filme hollywoodiano - eu finalmente entendi que aquela gélida imersão pacífica valia à pena.

Depois do almoço, fomos passear por Viña Del Mar, que é de longe muito mais bonita e agradável que Valparaíso. Passamos pelos principais pontos turísticos, tiramos foto no relógio das flores e, num gesto de imitação às gaivotas, colocamos nossos pés nas congelantes águas do mar. Uiii, achei que fosse perder os pés! A sensação é indescritível, parecida com colocar os pés numa bacia com muito, muito gelo e deixar por uns cinco minutos - foi o tempo que agüentei, mas tem que experimentar para saber como é. Voltamos para o hotel por volta das com um sentimento íntimo de plenitude.

O passeio foi memorável, mas degustar essas delícias contemplando o Oceano Pacífico em toda sua plenitude é o passeio inesquecível dessa viagem maravilhosa! Às vezes permito-me voltar ao Chile e faço esse filé em casa, é sempre delicioso, mas sinto falta de algo, não sei se a vista, o ambiente ou todo o conjunto. Sei que a experiência ficou gravada na memória.

domingo, 13 de março de 2011

Macarrão Mediterrâneo em Brasília

Lu e Eu
Conheci minha amiga Luciana em 2004, quando eu ainda morava em Fortaleza. Ela era minha 'trainee'. Não foi amor à primeira vista (nem ódio!), nossa amizade foi-se fortalecendo aos poucos, dia a dia, intensamente. É interessante como, até hoje, conseguimos nos divertir bastante com muito pouco. Demos boas risadas e depois do treinamento de quatro meses e mais seis meses da efetividade dela, eu vim embora para Brasília. Ainda hoje guardo o cartão que ela me deu no aeroporto com uma bela mensagem do coração dela. A partir de então sempre nos falamos por email e telefone, e quando a oportunidade e a conta bancária permitem, vamos ao encontro uma da outra.

Numa dessas idas e vindas, a Lu veio conhecer Brasília e, é claro, matar saudades. Então ela resolveu cozinhar pra gente. A Lu está entre minhas melhores amigas, mas cá entre nós ela não é a melhor amiga da cozinha, então fez um prato prático e delicioso. Ela usou 500g de macarrão do tipo penne, 3 latas de pomodoro pelatti picados, 2 cebolas grandes em rodelas, azeite, sal e pimenta calabresa a gosto, 500g de camarão (se estiver fresco fica ainda melhor) e um maço de manjericão fresco.

Ela ferveu o macarrão em água com sal, até o ponto al dente. Jogou os camarões em água fervente por aproximadamente 3 minutos (até que ficaram vermelhos) e reservou esses 2 ingredientes. Depois, fritou as cebolas no azeite até elas murcharem e então acrescentou os pomodoros pelattis. Quando o molho havia encorpado, ela colocou os camarões. Nesse momento acertou o sal e a pimenta e desligou o fogo. Acomodou o macarrão numa travessa e deitou o molho sobre ele, depois misturou graciosamente o manjericão e o molho ao macarrão e serviu bem quente, deixando a parte o queijo ralado – para aqueles fanáticos por queijo com massa, tipo eu - e um bom vinho tinto carmenere.

Foi um jantar em família delicioso! Essa mistura é perfeitamente agradável ao paladar. E combina perfeitamente com uma conversa amigável e boas risadas.

Depois que ela foi embora eu já fiz esse prato algumas vezes, mas como boa curiosa da gastronomia que sou, é claro que já inventei variações e posso garantir que esse macarrão fica igualmente aprazível se substituir os camarões por peixes variados - na ocasião usei salmão, robalo, atum e bacalhau, tudo em pequenas quantidades e previamente cozidos - ou se simplesmente acrescentar uma variedade de frutos do mar aos camarões. Aí ele fica um verdadeiro macarrão mediterrâneo! Também já usei talharim do tipo massa fresca, e fica igualmente bom.

A distância, é engraçado dizer, apesar de alimentar as saudades, fortalece os laços de estima. São agora 6 anos e um pedaço de boa amizade, mas sempre que nos encontramos é como se nunca tivéssemos nos afastado. E o papo, as gargalhadas e o carinho continuam do mesmo ponto em que paramos no último encontro! E quando a saudade aperta muito e não podemos nos encontrar, faço um bom macarrão mediterrâneo em homenagem a nossa grande amizade e o pensamento me leva longe!

domingo, 6 de março de 2011

Risoto de pêra, gorgonzola e nozes com sabor de infância

Sempre gostei muito dessa coisa de gastronomia, culinária, receitas e coisa e tal, mas dessa vez coloquei na cabeça que queria fazer um curso e mais, queria fazer junto com minha mãe. Achei que ambas nos beneficiaríamos de um momento assim juntas.

Minha mãe, a chef Catarina
e o pessoal do curso
Em fevereiro de 2011 procurei duas vagas no curso de risotos da chef Catarina Melo. A Catarina me foi recomendada pela Dri, minha amiga de infância, que havia feito o curso com ela e gostado muito. Fiquei extremamente decepcionada quando a chef me informou que não havia mais vagas para o curso daquela data, mas que se alguém desistisse, ela me ligaria. Não ligou. Eu, boa brasileira que sou, não desisti. No dia anterior ao curso, resolvi ligar novamente, ninguém desistiu. Tudo bem, fazer o que? Nem sempre a vida acontece como a gente quer. Dez minutos depois da última negativa, porém, a Catarina me ligou informando que um casal havia desistido na última hora. Fiz o depósito assim que ela me informou sobre as vagas, feliz por tudo ter dado certo.

O curso foi ótimo, a chef é dinâmica, divertida e didática (tudo assim começando com ‘di’ ficou até engraçado). A turma com 8 pessoas conseguiu interagir bem e a aula foi um sucesso. Além de uma delícia, devo dizer. Aprendemos a fazer risoto de camarão, champagne e parmesão, de presunto de parma com queijo gruyere, de calabresa com alho porró e açafrão (o verdadeiro, não o da terra), de tomates secos com aspargos frescos e queijo camembert e de frango com chutney de banana e parmesão. Ficou bem difícil definir qual era o melhor. Estavam todos deliciosamente saborosos!

Saí do curso decidida a fazer vários outros cursos pela cidade! Para mim, foi uma realização. Então, para comemorar e colocar em prática o aprendizado combinei com a Dri um jantar lá em casa. Para duas pessoas, usamos:
200g de arroz arbóreo;
1 pêra - não muito madura para não derreter, mas também não pode ser verde - picada em pedaços (deve ser picada perto do horário do uso para não escurecer);
1 triângulo de queijo gorgonzola - aproximadamente 100g;
750 ml caldo de legumes - pode ser o de cubinho derretido em água fervente, mas com o caldo feito em casa fica mais gostoso;
1 colher de sopa de manteiga;
1 colher de sopa de azeite;
1 cebola picada;
100ml de bebida alcóolica clara (no caso usamos cachaça);
100 g de nozes picadas.

O arroz arbóreo não pode ser lavado para dar a liga do risoto. Coloca-se na frigideira a manteiga, o azeite e a cebola tudo ao mesmo tempo até a cebola murchar. Acrescenta-se o arroz e vai mexendo por mais ou menos 1 minuto - ele fica um pouco transparente - nesse momento acrescenta-se a cachaça até o álcool evaporar (quando o cheiro do álcool sumir) aí, começa acrescentar o caldo - que precisa estar quente - devagar. Uma no máximo duas conchas por vez, quando estiver secando, acrescenta-se mais. Começa a contar o tempo de 15 minutos a partir do momento que colocar a 1ª concha de caldo. Nunca deixe secar o arroz. Quando completar os 15 minutos acrescenta-se os ingredientes, começamos pelo queijo, no último minuto acrescentamos a pêra e após desligar o fogo juntamos as nozes para não perderem a crocância.

Servimos quente acompanhado de espumante branco que no rótulo dizia ser suave e nos deixou bem apreensivas, mas no fim das contas era quase seco e bem gostoso. Ficou tão bom o risoto que já estou pensando numa receita de risoto com damascos! Já me achando a chef de cozinha!

Para fechar com chave de ouro, depois do risoto fizemos também um petit gateaut. Só que essa receita virá numa outra postagem, para ficar – como costuma dizer minha mãe – com um gostinho de quero mais.

Nessa noite conversamos até bem tarde. O jantar ficou delicioso, a sobremesa estava perfeita, e nada como a agradável companhia de uma grande amiga para deixar a noite realmente deliciosa!