domingo, 19 de junho de 2011

Tartare de Haddock Defumado

Quando Irene entrou no shopping, o circo já estava armado: havia um 'cercadinho' com mesas e cadeiras no centro, e uma bancada de cozinha improvisada com vários utensílios e apetrechos. À entrada gritavam duas mulheres palavras de baixo calão, quase estapeando-se. O rapaz da organização do evento - um workshop gourmet com os mais famosos chefs da cidade - tentava, em vão, apaziguar a discussão cujo motivo ele desconhecia. Tinha algo a ver com o número de vagas, quem iria ou não entrar para participar do mini curso ou coisa parecida, ao que Irene pode entender.

Quando chamou a próxima da lista, Vânia, pela segunda vez, e ninguém se manifestou, Irene, que não estava inscrita, aproveitou a deixa e seguiu até o pequeno balcão. Segura de si, identificou-se como Vânia de Melo Soares, assinou a lista de presença e seguiu para uma cadeira vaga na segunda fileira do lado direito. Sentou-se, acomodou a bolsa no encosto da cadeira e aguardou ansiosa o início da aula.

O chef - parecia ter no máximo 35 anos - apresentou-se como chef de um grande restaurante francês da cidade e disse que trabalhava na área desde os 18 anos. Irene, tão perdida que estava em sua vida, olhara para ele e pensara 'porque a vida não lhe dera essa oportunidade de se encontrar, profissionalmente, tão cedo?'. Então o chef apresentou a primeira receita: Tartare de Haddock defumado. - O que era um tartare? pensou Irene. Quem era o Haddock?  Será que daria para fazer isso para o jantar naquela noite? - É, realmente não sabia se estava no lugar certo.

Surubim defumado
Enfim descobriu que Haddock era um tipo de peixe do Pacífico Norte de sabor suave que, no Brasil, poderia ser substituído pelo Surubim. E que Tartare era um tipo de entrada que poderia ser servido com salada ou torradas. Poderia ser servido inclusive no próximo encontro de amigos, que faria em sua casa na noite seguinte, pensou. Mas não para o jantar dessa noite definitivamente.

Os 500g de haddock poderiam ser encontrados na feira ou nos grandes mercados segundo informações do chef. As outras coisas: 1 manga, 1 xícara de morangos, 1 kiwi, 1 cebola média, 1 pimenta dedo de moça vermelha, 2 limões sicilianos, poderiam ser encontradas nos mesmos lugares.

A receita era simples, deveria cortar tudo em cubos pequenos, misturar tudo em uma tigela e, na hora de servir, temperar com o suco dos limões, azeite e sal à gosto.

O chef serviu em um copo bem pequeno de vidro, pouco maior que uma xícara de café, acompanhado de salada de alfaces variadas. Quando Irene experimentou o tal Tartare, sentiu um misto de prazer e alegria. A textura macia do peixe e das frutas, o combinado do sabor defumado com o doce... Ficou sem palavras! Sim, definitivamente serviria aquela delícia para os amigos na noite seguinte. Teria de correr para encontrar o tal peixe, mas iria valer a pena.

Quando deixou o 'cercadinho', a briga já havia terminado. Soube pelo rapaz que organizava o evento e estava na entrada que uma daquelas senhoras identificou-se como Vânia antes de ir embora, mas que depois da confusão - pois chegaram a estapear-se e rolar pelo chão numa louca confusão de beliscões e puxões de cabelo que precisou da intervenção da segurança do shopping - não se sentia à vontade para participar da aula e decidiu, com toda a classe não lhe cabia, partir.

Irene saiu do shopping correndo. Pegou o metrô até em casa e esquentou uma sopa que havia feito na noite anterior. No dia seguinte, resolveu que faria um peixe assado como prato principal. Serviu o Tartare de Surubim (que era mais barato que o Haddock) defumado em potinhos de louça pretos e brancos, sem o acompanhamento de folhas. Decorados com manjericão fresco. E o peixe assado com um tempero bem suave. A noite foi um sucesso! Os amigos elogiaram  tudo, mas quiseram saber especialmente o que era aquele tartare e onde Irene havia aprendido a receita.

Irene contou toda a história e a noite que já estava animadíssima, recheou-se com as gargalhadas do grupo e a alegria que enchia o ambiente. Irene sentiu-se imensamente abençoada por ter tantos amigos queridos. E aquela noite, demorou a terminar. Regado a muito vinho o Tartare e a história de Irene foram as celebridades da noite.  

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Spicy coxinhas da asa

Lucinha passou correndo pelo portão do edifício onde morava. Já estava muito atrasada para o jantar a dois que tinha combinado com o marido. Esbaforida entrou no hall e bum, escorregou no piso molhado! Não tinha visto a placa de advertência - aquela amarelinha informando: Cuidado, piso molhado! – Caiu de bunda no chão. Pacotes para um lado, bolsa para o outro, uma confusão só.

Desajeitada começou a catar as coisas espalhadas pelo chão. O rapaz da limpeza, que minutos antes não sabia se ria ou se corria em socorro da moradora, mais que depressa largou o rodo e começou a catar as coisas e colocar na bolsa de compras de Luisa que, toda sem graça, agradecia a cada instante. Ele ajudou-a a se levantar e segurou a porta do elevador para que ela entrasse.

Quando levantou o olhar e deparou-se com a figura no espelho, Lucinha não pode controlar o riso. Soltou uma deliciosa gargalhada lembrando-se do tombo e vendo os cabelos desgrenhados e a maquiagem borrada devido às lágrimas que lhe caíam dos olhos de tanto que ria. Entrou em casa ainda gargalhando quando se deparou com o marido com uma cara de bode que significava “Qual é a graça?”.

Cheia de bom humor, Lucinha então começou a narrar os acontecimentos, o motivo do atraso e, enquanto ambos riam juntos retirou da geladeira as coxinhas da asa – 12 - que havia temperado antes de sair com 3 dentes de alho bem amassados, 2 colheres de sopa daquela sopa de cebola de pacote, uma pitada de sal e molho de pimenta bem forte à gosto. Depois de 1 hora, acrescentou 1 latinha de cerveja e 4 fatias de gengibre e deixou marinando por mais 1 hora.

Retirou 1 latinha de cerveja na geladeira, pegou as canecas do freezer, serviu a cerveja e chamou o marido. Fizeram um brinde ao amor e Lucinha se pos a cozinhar as coxinhas. Aqueceu uma panela e colocou as coxinhas dentro. Sem óleo. Até dourarem. Nesse momento acrescentou o molho da marinada e tampou a panela por aproximadamente 15 minutos. Destapou a panela e de vez em quando mexia. Repetiu esse procedimento até que o molho reduzisse por completo.

Organizou a bandeja com um prato contendo as coxinhas, molho de mostarda e molho de queijo feito com 1/3 de triângulo de queijo gorgonzola e 3 colheres de creme de leite fresco. Amassou o queijo e misturou vigorosamente com o creme de leite. Para o molho de mostarda usou 2 colheres de sopa de mostarda, 2 colheres de sopa de creme de leite, suco de ½ limão e 1 pitada de pimenta do reino branca.

Aquela noite estava apimentadíssima, restava agora a ambos exercitarem a criatividade para deixá-la ainda mais deliciosa. Quando Renato experimentou a primeira coxinha, o sabor e a textura do frango podiam ser mensurados em sua feição. E aquele toque de pimenta então? Delicioso! Estava escrito na cara dele, literalmente! O prato foi aprovado e Lucinha restava feliz, conversando bobeiras com o marido e rindo infinitamente, cercada de beijos e regada a cervejinha bem gelada. A noite foi perfeita! 

domingo, 5 de junho de 2011

Ravioli ao molho de abóbora com gengibre e alecrim

- Então está combinando assim mesmo: você chega amanhã às 8:45h no aeroporto e vai ficar aqui em casa?
- Sim – disse a amiga.
- Ótimo, vou me organizar para te buscar e preparar um almoço digno desse tão aguardado reencontro. – Bradou Luisa demonstrando uma felicidade alegórica.
- Perfeito. Temos muito que conversar, isso pede um prato daqueles bem gostosos no qual possamos gastar horas. – Falou a amiga desenrolando uma deliciosa gargalhada que Luisa conhecia bem. – Um beijo e até amanhã.
- Outro. E boa viagem. Qualquer coisa liga tá? – disse já colocando o telefone na base.
Ao desligar o aparelho, Luisa começou a pensar no que poderia fazer para comemorar aquele momento.  Não era só uma ocasião especial, era um momento pelo qual ambas aguardavam há séculos. As amigas de infância separaram-se por um desejo do destino, ou do coração de Luisa quando optou por largar tudo e ir em busca do seu sonho dourado: conhecer outras culturas. Quando optou por ser cidadã do mundo sabia que demoraria para reencontrar as pessoas queridas novamente, mas seu coração estava gritando por aquele movimento, o que mais poderia ter feito?

Precisava de uma receita leve, pois sabia o quanto ambas comeriam naqueles dias. Também de preferência uma receita que não levasse carne, pois Amanda não era o mais carnívoro dos seres. Foi então que lembrou-se de uma receita que estava louca para testar havia meses: Ravioli de gorgonzola ao molho de abóbora com gengibre e alecrim. Sim, essa seria a receita ideal para aquele momento. Folheou o livro de receitas e foi anotando os ingredientes de que precisaria:

·         300g de ravióli de gorgonzola                                                        
·         250g de abóbora picada
·         1 caixinha de creme de leite
·         1 colher de gengibre ralado (fino)
·         1 ramo de alecrim (ou mais a gosto)
·         1 cebola pequena picada em cubos
·         1 colher de azeite de oliva
·         Sal e pimenta do reino moída na hora a gosto

1 garrafa de um bom vinho rosè para acompanhar. – Embora o vinho rosè não houvesse sido indicado por nenhum sommelier, Luisa e Amanda haviam conversado sobre ele no último encontro – que ocorrera uns 4 anos antes – e ambas concordaram em experimentar um rosè, juntas no próximo encontro: o atual.

Saiu em busca dos seus ingredientes. Encontrou praticamente tudo, menos o ravióli de gorgonzola. Procurou pela cidade inteira, em vão. Pensou em fazer a massa, mas ainda tinha que organizar a casa para receber a amiga. Não teria tempo. Então resolveu levar um de mussarela de búfala que a vendedora lhe estava ofertando naquele momento.

Chegou em casa e, servindo-se de uma taça de vinho tinto, repassou a receita. Ferva 2 litros de água com sal. Coloque os raviólis quando a água estiver fervendo e deixe por 8 minutos. Depois retire-os, lave-os com água fria e reserve.

Coloque a abóbora numa panela com água até cobri-las e deixe ferver. Quando a abóbora estiver macia, desligue o fogo e bata tudo no liquidificador até ficar bem batido, sem pedaços. 
Refogue a cebola no azeite. Quando começar a murchar acrescente o gengibre e mexa por uns 2 minutos.

Adicione o molho de abóbora, mexa e deixe ferver em fogo médio. Quando o molho começar a reduzir, baixe o fogo, adicione o alecrim, o creme de leite e acerte o sal e a pimenta. Coloque os raviólis no molho e mexa com cuidado para não quebrarem. Deixe no fogo baixo por alguns minutos até ficarem aquecidos. Sirva em seguida acompanhado de queijo ralado na hora.
Esse foi o da casa da Dri.
Ficou fantástico!

Sem dúvidas essa era a receita. Teria que conseguir esperar até o dia seguinte para preparar tudo, mas estava com coceira para começar naquele momento. Então, agarrou as chaves do carro e partiu em direção ao shopping: assistir a um cinema agora seria a melhor solução para fazê-la esquecer daquela receita por alguns instantes. O suficiente até a amiga chegar e elas poderem se deliciar com aquele manjar.

Obs.: Essa receita foi testada por mim e pela Dri (minha amiga de infância de tantas outras receitas), no mesmo dia do Tiramissu, e foi baseada numa receita de sopa oferecida pela minha amiga Aninha. Ficou simplesmente dos 'deuses'. Vale super a pena experimentar.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Tiramissu originalmente italiano

Vira e mexe Maria Rita lembrava-se daquele episódio estranho e, silenciosamente, agradecia a Deus por poder enxergar. Pegou o diário e abriu no dia 12/10/01, começou a ler: Naquele dia eu acordei e meus olhos não viam nada. Buscava, procurava, abria e fechava os olhos e, no entanto, nada via. O desespero foi tomando conta de mim e, aos poucos, uma espécie de dor foi me consumindo e queimando meu interior. Uma dor profunda por não poder ver as cores, as luzes, imaginando que não poderia ver mais os olhos e seus olhares, as atitudes. E a coisa que mais gostava de fazer, a alquimia dos alimentos, a mistura dos ingredientes nas panelas, nas bacias, aquela confusão gostosa e organizada que acontece na cozinha, estaria comprometida. Eu estava cega? Não! O que teria acontecido? Decidi ligar para o médico para investigar o que poderia ter acontecido, estava tudo normal quando fora dormir na noite anterior.

Cuidadosamente levantei-me e, tateando, dirigi-me ao banheiro. Fiz a higiene matinal e lavei os olhos vigorosamente, como na esperança de poder tirar o que estava me impedindo a visão. Sem resultado. Andando vagarosamente pela casa, alcancei o telefone, mas não conseguia lembrar-me do número do consultório. Peguei o celular e liguei para o marido: - Renato, não estou enxergando nada. Sua reunião acabou? Preciso que você me leve ao médico. Você pode vir agora? - Falava uma frase após a outra, sem pausas para respirar ou para deixar o marido falar. Renato saiu do escritório feito uma bala, dizendo que já estava a caminho de casa e pedindo para que eu me acalmasse.

Era sexta-feira e tinha me programado para fazer um Tiramissu com aquela receita originalmente italiana que trouxera de uma deliciosa visita a Roma. Quando provara o doce – não tão doce assim – pela primeira vez, senti-me no paraíso: a combinação perfeita de sabores e a textura leve resultantes daquela mixagem culinária, pareceram-me um pedacinho do céu.
Lembrava-me da receita fornecida por Mamma Giullia, dona da cantina à esquina da rua onde ficava o hotel em que me hospedara. Nem era casada ainda:
  • 2 gemas
  • 1 clara em neve
  • ¼ xícara de açúcar
  • 250g de queijo mascarpone
  • ½ pacote de biscoito champagne
  • café forte e frio para umedecer os biscoitos
  • 1 a 2 cálices de licor de amêndoas

Bata as gemas com o açúcar vigorosamente até formar um creme esbranquiçado. Acrescente o mascarpone e incorpore a clara. Se gostar do sabor do licor mais acentuado, misture metade do licor nesse creme. A outra metade misture ao café.

Para montar umedeça os biscoitos na mistura de café e licor e forre o fundo da forma. Cubra com metade do creme. Coloque outra camada de biscoitos e finalize com uma camada de creme. Leve à geladeira por aproximadamente 4 horas e, na hora de servir, polvilhe uma fina camada de cacau em pó peneirado.
  • Si te voglie fare um dolce per molta genti, duplica la ricetta! - Dissera Mamma Giullia com todo o corpo e um largo sorriso que ainda podia visualizar.

Da primeira vez em que testei essa receita, foi num almoço na casa da minha amiga Adriana. Fizemos um ravioli como prato principal e Tiramissu de sobremesa. Por não gostarmos muito de café, usamos um café fraco para não acentuar o sabor. Também por isso, substituímos os biscoitos champagne por biscoito maisena de chocolate. Ainda lembrava-me da sensação celestial que tivera ao provar o doce. Fora levada de volta à Roma através do paladar. Já na primeira colherada fora capaz de ver em cores toda a cantina da mamma e aquele burburinho italiano do qual fizera parte por 7 prazerosos dias.

Quando Renato chegou em casa, encontrou-me dormindo no sofá repetindo: -”Tiramissu. Tiramissu. Preciso enxergar o Tiramissu”. Renato achou graça e com uma vigorosa gargalhada e um beijo na testa despertou-me de meus doces sonhos. Ao abrir os olhos e ver Renato parado e rindo a minha frente, não consegui entender nada. Será que havia mesmo acordado sem enxergar? Ou simplesmente estava delirando e tudo não passou de um sonho? Não sabia. O que sabia era que naquele momento faria o Tiramissu para sobremesa do jantar e se deliciaria não só com o sabor, mas principalmente com a bênção maravilhosa de poder enxergar. Agradeci a Deus pela sua saúde perfeita. Beijei meu marido carinhosamente e corriu até a cozinha para colocar as mãos na massa. Aquela noite tinha um sabor visivelmente diferente das outras.

Obs.: Fizemos esse tiramissu na casa da Dri (aquela minha amiga de infância) e foi um sucesso. Nas outras receitas que pesquisamos, as pessoas usam qualquer tipo de bebida alcoólica desde uísque até cachaça, usamos o licor de amêndoas porque queríamos a receita original, e faz diferença. Vimos várias receitas informando que o queijo mascarpone pode ser substituído por cream cheese e creme de leite fresco, pois o verdadeiro mascarpone custa muito caro. Mas já havíamos substituído os biscoitos e enfraquecido o café, optamos por usar o verdadeiro queijo e o licor de amêndoas para não nos distanciar muito da receita original.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Talharim aos queijos

Chegou em casa depois da aula às 12:30h. Abriu a geladeira e deparou-se com a realidade dos solteiros que ‘optam’ por morar sozinhos: um vazio só. Não tinha nada naquela geladeira! Resolveu usar a criatividade e ver no que ia dar.

Precisava de uma receita prática que não usasse ingrediente algum e resultasse num prato deliciosamente saboroso e matar sua vontade de comer “uma coisa”. Era assim que dizia quando tinha vontade de comer algo muito gostoso, mas não sabia exatamente o que. E era isso o que desejava naquele momento: algo delicioso!

Foi fuçando as prateleiras e conseguiu levantar os seguintes ingredientes: 200g de talharim fresco – só que estava congelado; ½ triângulo de queijo gorgonzola que sobrou da noite de queijos e vinhos que preparou para o namorado; +- 50g de queijo parmesão que tinha ralado para o risoto que fez para a mãe; 2 colheres de creme de leite fresco – que a essa altura do campeonato de fresco não tinha mais nada, pois estava na geladeira há mais ou menos uma semana; castanhas de caju; 1 garrafa de vinho tinto seco carmenere que estava gelando há dias (isso combinava? Ah, teria de combinar).

Colocou a água para ferver e adicionou sal. Não gostava de colocar um fio de óleo na água do macarrão desde que havia lido não se lembrava onde havia lido que o óleo não permite que o molho se incorpore muito bem à massa.

O interfone tocou. Como assim o interfone tocou? Não estava esperando ninguém! E tinha planos para aquela tarde, havia planejado tudo meticulosamente: depois do almoço lavaria as louças, organizaria a casa e se deitaria para ler um bom livro e tirar aquele cochilo. Estava planejando isso há dias! Ficou na dúvida se deveria ou não atender, mas acabou sucumbindo ao toque irritante daquela campainha. Quem poderia ser?
  • Oi.
  • Oiê! tudo bem?
  • Quem é?
  • Sou eu, Luís, oras quem é?!
  • Que Luís?
  • Ê, vai começar de brincadeira é?
  • Olha Luís, sinceramente eu acho que você tocou na casa errada. Eu não conheço nenhum Luís.
  • Mas aí não é a casa da Graça?
  • Não, Luís, aqui não é a casa da Graça.
  • Mas não é do 803?
  • Não, é do 703!
  • Ah tá, desculpa!
  • Tudo bem.

Quando voltou-se ao fogão, a água já estava fervendo. Colocou a massa - apenas metade do pacote, poderia precisar de uma outra vez – e marcou 8 minutos no temporizador. Acabado o tempo, retirou a massa, lavou em água fria e começou a fazer o molho. Derreteu uma colher de sopa de manteiga e passou o talharim. Adicionou metade do queijo gorgonzola e quando este começou a derreter juntou o creme de leite fresco. Acrescentou metade do parmesão e desligou o fogo. Nesse momento colocou as castanhas de caju picadas grosseiramente.

Colheu algumas folhas de manjericão do pé que mantinha na varanda, serviu uma taça do vinho tinto que estava na geladeira. Sentou-se em frente à TV e, como não tinha nada que prestasse passando, ligou o DVD e colocou Sem Reservas para ver de novo.

Deu a primeira garfada no talharim e o primeiro pensamento que lhe veio à cabeça foi: Como podia ficar tão boa uma massa quase sem ingredientes? Sinceramente, não faltava nada. Ao terminar de comer, deitou-se no sofá onde adormeceu pelo resto da tarde deixando as louças, a casa e o bom livro para um outro momento. Um momento em que não estivesse curtindo um cochilo tão gostoso.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Pasteis de Caranguejo e Carne Seca à São Luís

Praia Calhau Litorânea
Pisei os pés na ilha do amor pela primeira vez em 2001. Tinha acabado de me formar e a turma queria uma festa tipo baile. Eu, como nunca fui fã desse tipo de festa e estava me formando em turismo, decidi que iria juntar a grana e fazer uma viagem para um lugar que não conhecesse.

Eu e Kátia Maria
Ouvia falar de São Luís do Maranhão desde os meus 12 anos quando conheci Kátia Maria. Maranhense apaixonada e convicta falava de São Luís como se fosse a 8ª maravilha do mundo. Ficamos amigas e trocamos cartas por anos, era a hora certa de ir conhecer a cidade e rever uma velha amiga.

A minha primeira impressão foi deliciosa. É uma ‘cidade do interior’, encantadora! Depois dessa ida, voltei à São Luís inúmeras vezes. O mar de São Luís é diferente, a água tem um tom amarronzado, estranho. Mas a água é salgada do mesmo jeito e mar é mar com areia e praia e barracas e água de coco e ostras e caranguejos e tal.

Márvio e Eu no Reviver
Todas as vezes em que voltei à ilha, tive experiências gastronômicas e turísticas deliciosas, mas foi na minha lua de mel que conhecemos o restaurante ‘Maracangalha’ situado na Av. Litorânea, de frente para o mar. Pedimos um peixe com um molho diferente que estava delicioso, mas a experiência gastronômica marcante dessa viagem, foram os pastéis que pedimos de entrada.

Eram mini pastéis recheados com carne de caranguejo e com carne seca acompanhados de geleia de pimenta. Uma ‘coisa’! Super fácil de fazer e ótimo petisco para acompanhar uma cerveja bem gelada.
Quando voltamos à Brasília encontramos a carne de caranguejo na feira a um preço razoável. Compramos 200g. Refoguei com cebola e tomate picadinhos e coloquei ervas aromáticas. Ao final acrescentei cheiro verde.

Para o recheio de carne seca precisamos de 200g de carne de charque dessalgada e desfiada. Refoguei com cebola e tomate picadinhos e deixei ficar pouco caldo, grosso.

Comprei massa de pastel pronta, recheei os pasteis e assei - viciei em pastel assado porque é mais light e mata a vontade de comer pastel do mesmo jeito, só que ao invés de pincelar a massa com gema de ovo, gosto de usar azeite - em forno preaquecido em 200º até ficarem dourados.


A geleia de pimenta trouxemos de São Luís e sempre que alguém vem de lá, encomendo para matar saudades, mas é possível encontrar nos grandes mercados. A combinação fica perfeita! Depois dessa experiência já fiz esses pasteis com recheios variados – o de calabresa com queijo mussarela fica delicioso - mas a geleia de pimenta não tem substituta: tem que ser ela e pronto! Você vai entender se resolver testar essa receita.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Brownie de Microondas na Páscoa

Eu quero! Eu quero, eu quero! – Batia os pés no chão mantendo os punhos bem cerrados enquanto sustentava seu desejo, sem gritar, porque a mãe havia lhe ensinado que deveria manter o tom de voz para não perder a razão. Não sabia ao certo o que era razão, mas isso não importava, naquele momento o importante era conseguir alcançar seu objetivo.

Desafiava a mãe aquele projeto de pessoa! A pequena Maria Clara sempre fora assim, determinada, decidida, enfática. Tinha a habilidade de impor sua vontade. Aos cinco anos sabia bem o que queria, e, naquele momento, o objeto do seu desejo era muito simples: um ovo de páscoa diferente!

Sua mãe, Cecília, jovem e perdida na ciência da maternidade, entendia que lhe cabia descobrir exatamente o que era ‘diferente naquele caso.

Como não bastassem as adversidades que a vida lhe trouxera, enviara de brinde uma menina assim: queria ser diferente em tudo! Nada do comum lhe agradava. Era uma dificuldade encontrar roupas, sapatos, penteados, comida, coisas que lhe satisfizessem. Porque a filha não podia ser como as outras crianças, que aceitavam tudo, para as quais qualquer coisa estava bom?!

Tomada por esses pensamentos, em um total estado de letargia, agarrou o primeiro vestido que lhe veio a mão, escorregou-o pelo corpo suado, prendeu os cabelos num coque mal feito e foi verificar a menina. Esta, sentada à mesa da cozinha, vestida com o uniforme impecável, os cabelos muito bem penteados, e a mochila nas costas, levantou-se de súbito ao ver a figura da mãe parada à porta como se fosse uma qualquer. Não lhe agradava ver a mãe assim. Era uma mulher bonita, distinta, cheia de graça e alegria, mas nos últimos tempos parecia mais velha do que sua avó, estava sempre cansada e muito mal vestida. O que estaria acontecendo com a mãe? Ela pensava e pensava, mas nos seus cinco anos bem vividos, não encontrava resposta para perturbadora pergunta.

Saíram de casa. Andavam de mãos dadas pelas ruas da cidade, sem dizer palavra. A mãe perdida em seus pensamentos e a filha em suas considerações, procurando uma forma de fazer a mãe voltar à vida. Pararam de frente ao Liceu, a menina olhava para cima enquanto o rosto cansado e triste da mãe descia ao encontro do seu. Beijou-a na face com carinho e disse: mamãe, eu te amo! A mãe abriu-lhe um sorriso entristecido e replicou: também te amo Coelhinha! Virou-se de costas e seguiu caminho para a clínica.

Durante toda a caminhada a cabeça estava livre de pensamentos. Ou tomada por tantos que não conseguia organizar e entender um sequer. Achou melhor continuar caminhando sem dar atenção a nenhum deles. Entrou no consultório, falou com a secretária, sentou-se e passou a folhear, desinteressadamente, uma revista que estava sobre a mesa de centro: anúncios de lojas, propaganda de cosméticos, belíssimas modelos vestindo roupas da moda e uma receita fácil de brownie de chocolate. Uma receita FÁCIL de brownie de chocolate?! Pediu um papel à secretária e começou a anotar a receita:

Brownie no microondas
200g e mais um pouco de manteiga com sal (1 tablete e mais um pouco)
Levar a manteiga ao micro para derreter - dica derreter no pirex que será usado para assar o doce, assim já estará untado quando for ao forno.

Despeje a manteiga derretida numa bacia e acrescente:
1 xícara de chocolate em pó
2 xícaras de açúcar
4 ovos inteiros
1 1/2 xícara de farinha de trigo
Misturar bem e levar ao microondas em pirex untado na potência FORTE (alta) durante 10 minutos (se o forno for MUITO potente, comece a verificar se ficou pronto aos 8 minutos).
Se desejar pode acrescentar nozes picadas. No forno convencional leva + ou - 45 min em forno pré-aquecido.  Servir com sorvete de creme.
Que forno convencional que nada! Um bolo que leva 10 minutos para ficar pronto?! Era a solução para o seu problema atual: Esse podia ser um ovo de páscoa diferente, pensou chegando a esboçar um sorriso. Enquanto a secretária a chamava informando que era sua vez de entrar.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Berinjelas à Parmiggiana e Risoto ao Limão sem sair de casa

Acordou às com uma saudade intensa de Florença. Aqueles campos floridos, as ruas estreitas da cidade, aquelas casinhas lindas e o gelato! O melhor sorvete do mundo. Pode visualizar-se claramente andando pelas ruas de Milão, percorrendo os pontos turísticos de Roma, voltando às origens no sul da Itália. Mentalmente via-se dirigindo pelos campos da Toscana! Agora era assim: sentia saudades de lugares por onde nunca havia passado. Pelo menos não nessa vida, pensava. Será possível que já estivesse andado por lá em alguma outra vida? Não sabia, não estava certa ao menos de que havia outra vida.

Espreguiçou-se, levantou-se vagarosamente, fez uns exercícios de alongamento e pegou um livro de receitas italianas que ganhara do marido. Folheava bem devagar, prestando a máxima atenção às receitas e às fotos dos pratos - cada uma mais linda que a outra - tentando imaginar qual o prato certo para lhe levar de volta àquele lugar de beleza tão ímpar. 

Viu receitas de antepastos, sopas, saladas, massas diversas, polenta... Ufa, quanta diversidade há na culinária italiana! Estava quase desistindo quando se deparou com aquele que aguçou seu paladar: Risoto ao limão. Pode sentir na boca o sabor de limão e aquela sensação causada pela acidez da fruta. Um tanto quanto diferente aquela receita, pensou.

Mais à frente encontrou uma receita que levaria 2 berinjelas cortadas em rodelas, 4 tomates também em rodelas, 100g de molho de tomate, folhas de manjericão picadas, sal, 200g de queijo mozzarella em fatias e 50g de queijo parmesão ralado.

A receita dizia: salpique as berinjelas com sal e deixe repousar em um escorredor por aproximadamente 30 minutos, para eliminar o líquido amargo. Lave as fatias e seque-as com papel-toalha. Doure-as em uma frigideira antiaderente sem óleo até que estejam bem tostadas por fora e macias por dentro. Faça camadas alternando fatias de berinjela, fatias de tomate, 1 colherada de molho de tomate, algumas folhas de manjericão picadas, fatias de mozzarella e parmesão ralado. Leve para assar em forno pré aquecido em 160º por 10 minutos. Decore com manjericão e sirva em seguida.

Estava decidido: Berinjela à parmiggiana como entrada. Risotto ao limão para prato principal e um bom vinho branco riesling para acompanhar!

Para o risoto levou uma panela ao fogo com uma colher de sopa de azeite e refogou 250g de arroz carnaroli até ficar levemente dourado. Acrescentou então 1 cebola picada e salteou por mais 2 minutos. Abaixou o fogo e juntou 50 ml de vinho branco seco em temperatura ambiente até o álcool evaporar e então começou a acrescentar, aos poucos, 500 ml de caldo de legumes, mexendo sempre. Cozinhou por mais ou menos 15 minutos, até ficar ‘al dente’. Nesse ponto acertou o sal e a pimenta. Retirou a panela do fogo, adicionou 1 colher de sopa de manteiga misturando bem. Em seguida, juntou o suco de 1 limão e 4 gemas, mexendo vigorosamente, para formar um creme denso. Polvilhou queijo parmesão que ralou na hora e serviu.

Ao preparar a refeição, colocou um CD de músicas italianas que uma amiga lhe emprestar.

Ao degustar aquele cardápio originalmente italiano, pode sentir um sabor conhecido, não aflorado, mas que restava guardado em algum lugar de sua memória. Apesar de não ter saído de casa, foi uma viagem deliciosa. Resolveu que essa seria uma forma de viajar sempre que sentisse vontade, mesmo que a sensação não fosse a mesma de estar presente no lugar, levava-a de corpo e alma ao local imaginado.

domingo, 10 de abril de 2011

Antepasto de Pimentões Vermelhos regados à adolescência

Tinha mais ou menos uns 14 anos quando a mãe a chamou para ir a uma reunião na casa de uma amiga. Era uma reunião das coroas, não ia ter nada que lhe interessasse. Mas resolveu ir, não tinha nada a fazer e gostava muito da Vera, a amiga da mãe.

Lá chegando constatou - como havia imaginado - que nada haveria de bom para ela naquela noite. E logo começaram aquelas conversas que sempre temos que enfrentar quando as amigas das nossas mães se encontram:
- 'Nossa, essa já é a Joana? Como está crescida!' - dizia uma.
- 'Joana, que linda. Uma moça feita né?' - dizia outra.
E lá vinha mais uma: ‘Gente, o tempo passa muito rápido mesmo, foi outro dia que te segurei no colo!’ - A pobre Joana sorria para uma e outra, desconcertada e desejando que aquele momento de tortura chegasse ao fim e as ‘coroas’ mergulhassem em algum papo da juventude e a deixassem em paz.

Perdida em meio aquelas considerações, mergulhou de cabeça na única coisa que poderia fazer: comer! E deu a experimentar tudo o que havia nas mesas. Uma fatia de bolo ali, um pãozinho aqui, um pouquinho desse caldo, uma torta salgada, outra doce... E divertia-se entretida naquele mundo tão delicioso. Lá pelas tantas se deparou com uma compota salgada de uma coisa vermelha, algo parecido com tomate em fatias, mas com um sabor diferente. Colocou um pouco sobre uma fatia de pão e degustou. Nossa, que coisa boa! Sentou-se ao lado daquela mesinha de canto e, sozinha, entregou-se ao prazer da degustação daquela delícia gastronômica esquecendo-se de tudo o mais.

A mãe, que passara a festa toda acenando e sorrindo de longe enquanto colocava a conversa em dia, enfim a encontrou e perguntou: tudo bem?
- tudo.
- Já quer ir embora?
- Pode ser.
- Então vamos ficar mais um pouquinho?
- Pode ser. Mãe?
- Oi.
- Já que vamos ficar mais um pouquinho, você poderia perguntar à Vera como ela faz isso? É bom demais! Acho que é com tomate. Sei que tem cebola, alho, orégano, azeite...
- Combinado.- disse a mãe servindo-se de um pouco da compota que visivelmente aprovou e voltando-se à companhia das amigas.

Um pouco mais tarde a mãe lhe chamou para ir embora, e, ainda à porta, Joana não se conteve e perguntou:
- Você perguntou pra ela?
- O que filha?
- A receita...
- Ah, Vera, a Joana quer saber como você faz aquela compota de tomate.
A menina quase morreu de vergonha. Precisava perguntar assim, na cara dela?! Deu um sorriso amarelo e desviou o olhar.
Então a Vera disse: Gostou foi Joana? Não é tomate não, é antepasto de pimentão vermelho. Presta atenção, é super fácil: Depois de lavado, coloque um pimentão vermelho inteiro no forno para assar até que a casca desprenda. Aproximadamente 20 a 30 minutos, na temperatura baixa. Depois retire a casca, corte em fatias finas e coloque numa vasilha. Adicione uma cebola pequena cortada em tiras, 2 a 3 dentes de alho laminados, azeite o suficiente para deixar a mistura úmida e sobrar um pouco e especiarias. Nesse usei orégano e manjericão, mas você pode usar o que quiser.
- Obrigada Tia Vera!
- De nada minha flor!
Beijaram-se cordialmente despedindo-se.

Passaram-se os anos e Joana nunca fez a receita, como também nunca a esqueceu. Agora, mulher casada, chegou em casa um dia após o trabalho e resolveu testar. Quando estava quase acabando, viu que não tinha alho. Ligou para o marido, que ainda não havia voltado do trabalho e lhe pediu para comprar uma cabeça de alho. Deixou a mistura pronta, e por não ter orégano usou as ervas que cultivava na mini horta da varanda do apartamento: endro, manjericão e alecrim frescos e um pouco de tomilho. Quando o marido chegou, laminou os dentes de alho e acrescentou. Serviu uma porção numa fatia de pão e ofereceu ao marido que dispensou vários elogios em aprovação.

Depois, sentou-se calmamente no sofá com sua fatia de pão recheada da compota e degustou-a lentamente como fez anos atrás. A mesma textura de que se lembrava, a mistura homogênea de temperos. Aquele sabor que ficara gravado em sua memória, lá estava em suas mãos. Por alguns instantes foi levada de volta ao apartamento da tia Vera tomada por um prazer agradável. E foi naquele momento que decidiu não mais se eximir de praticar aquela receita várias e várias vezes para imergir-se em momentos tão deliciosos.

Obs.: Essa estória é baseada em fatos reais. :)

domingo, 3 de abril de 2011

Picanha Fácil

Há dias o Márvio vinha com essa história de que queria comer carne. Nem os rodízios de pizza, tão amados, ou melhor, programas favoritos dele não tiravam essa idéia de comer carne da cabeça dele. Estava com uma vontade daquelas que vem de dentro da alma. Carne! Macia, tenra, saborosa e vermelha carne.
Entrei no mercado para comprar frutas e me deparei com uma linda peça de picanha maturada por um ótimo valor.  Não resisti: comprei. Tinha visto dias atrás na TV, uma receita suuuuuper fácil de picanha ao forno. Era a oportunidade perfeita: saciar a vontade dele e testar uma nova receita.
O Márvio entrou na minha vida em 2005. Com um jeito sério e fechado, temos várias diferenças: no modo de pensar, nos gostos, no conhecimento, mas a convivência mostrou um ponto em comum muito forte: culinária! Eu amo cozinhar e ele ama experimentar minhas receitas. Sem reservas. Basta eu dizer o que vou fazer e ele vai com fé. Sem medo de ser feliz! Se for uma receita nova então, ele incentiva até o projeto sair do pensamento. Aos poucos, fomos descobrindo lugares comuns no relacionamento, e outros nem tão comuns assim.
No começo ele tinha medo de experimentar as coisas desconhecidas. O diferente. Aos poucos, foi se abrindo, percebendo o quanto é importante pra mim descobrir novos sabores, novas culturas através da gastronomia, e então se entregou.
Voltando à picanha, fomos passar o dia na casa da minha mãe. Levei a picanha. Chegando lá peguei a peça inteira e preparei. Depois coloquei num tabuleiro com a capa de gordura pra cima, besuntei com sal fino – coloquei sal abundantemente, dos dois lados. Uma camada por cima da capa de gordura. Outra capa, de sal – e por cima do sal, farinha de trigo. Levei ao forno pré-aquecido em 200 e depois de 30 minutos retirei do forno e cortei.

A princípio eu não estava muito crente não. Uma lapa de carne assim, temperada apenas com sal fino! E toda aquela farinha de trigo... Sei não. Enfim, cortei a peça em fatias e a faca deslizava como se eu estivesse cortando manteiga. A carne ficou macia, suculenta. Ao colocar o primeiro pedaço na boca senti que todo o receio anterior desapareceu naquele sabor equilibrado. A carne toda tinha um tempero suave e a textura era leve.

Levei à mesa, acompanhada de uma salada simples de alface picada, tomate italiano em fatias, cebolas em fatias, castanhas de caju picadas, sal, pimenta do reino, limão e azeite. Arroz integral e feijão carioca temperado com bacon. Perguntei: e aí... o Márvio pegou um pedaço de carne pura, sem acompanhamentos. Cortou, colocou na boca, mastigou lentamente, me olhou e disse: fantástica! Aí, minha mãe que nem de carne vermelha gosta, se aventurou. Experimentou e aprovou.
Almoçamos com um vinho tinto francês, Pinot Noir. E de sobremesa bananas flambadas. Estava tudo uma delícia. Ao final, para meu deleite, o ele me olhou e disse: valeu a pena esperar. Vontade de comer carne finamente satisfeita!